Mário Fernandez

Chamados Para Fora

“Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mateus 16:18 ARA)

Esta é a primeira menção bíblica da palavra “igreja” e talvez num contexto em que para nós o sentido é limitado. Essa palavra original (ekklesia) era comum naquele tempo e se referia a toda junção de pessoas que era chamada para fora da cidade para tratar de algum assunto importante. Talvez parecido com o que hoje conhecemos como assembléias ou reuniões de condomínio.

A igreja é o grupo dos chamados para fora, em todos os sentidos. Ser igreja é ser chamado para fora das estruturas, dos moldes desse mundo, dos valores deste século, das organizações, das religiões e principalmente, em primeiríssimo lugar, chamados para fora de si mesmos. Temos dezenas de versículos no Novo Testamento falando em negar-se a si mesmo, esvaziar-se, renegar paixões pessoais, não dar espaço para os caprichos da carne e assim por diante. Ou seja, sair de si mesmo.

Ser chamado para fora implica em abrir mão de sua opinião, de seus direitos de sua primazia. Eu venho depois, não apenas de meus líderes e pastores, mas de qualquer um que Deus coloque adiante de mim. Falo com isso com total liberdade, pois ainda que sendo pastor ordenado neste momento não estou a frente de nenhuma igreja local e portanto não faço este comentário em defesa própria ou nada neste sentido. Há líderes que não merecem suas posições, isso é outro problema. Quando alguém está numa posição e ali foi colocado pelo Senhor, deve-se esvaziar mais ainda, pois foi chamado para fora.

De nada vale se intitular igreja e viver como vivem todas as pessaos, pensar como pensa a sociedade, agir e reagir como todo mundo faz. Não é necessário ser diferente, é necessário ser correto, idôneo, sem culpa diante de Deus. É preciso ser igual ao padrão de Deus, custe o que custar.

Isso sim é igreja, isso sim é ser chamado para fora.

“Senhor, eu não sou capaz de me esvaziar como deveria para poder te servir como Tu queres. Preciso desesperadamente que Teu Santo Espírito faça uma grande obra em mim, me chamando para fora de mim mesmo.”

Mário Fernandez

Mário Fernandez

Foco

“A sabedoria é o alvo do inteligente, mas os olhos do insensato vagam pelas extremidades da terra.” (Provérbios 17:24 ARA)

Lembro-me de um conhecido conto de um arqueiro que primeiro atirava flechas pela cidade depois corria pintar alvos onde as flechas haviam caído. Por causa disso ele tinha fama de infalível e de pontaria perfeita. Safado, você pensou? Trapaceiro? Certamente, mas acima de tudo preguiçoso. Infelizmente, assim andam vivendo alguns cristãos.

Se a sabedoria é o alvo, não adianta ler somente os versículos que convém, ou meditar naquilo que interessa, nem tampouco escolher os pregadores que dizem o que queremos ouvir. É preciso ser confrontado para ser aperfeiçoado e focar no alvo é essencial para quem tiver o mínimo de vontade de acertar. Não mirar em nada é uma forma de acertar em alguma coisa, mas convenhamos que não produz nada. Note o que o versículo nos ensina: os olhos do insensato não olham para nada, não têm foco, não miram em alvo nenhum.

Buscar profetadas e palavras convenientes não é acertar no alvo, é pintá-lo onde atirou. Me preocupa sobremaneira quando alguém acha que a vida se resume apenas a ouvir o que quer ouvir sem nunca ser contrariado. Não foi assim que Jesus ensinou, não foi esta Sua pregação nem a de um dos homens mais elogiados do Novo Testamento, João Batista, o profeta, que não tinha realmente nenhum toque de sutileza em suas palavras, muitas das quais desagradaram seus ouvintes. Mas eram verdadeiras e precisavam ser ditas. Não recomendo dizê-las e não o faço, mas é preciso ouvi-las desde que seja da boca de um homem de Deus.

Nós estamos esclarecidos a respeito da Palavra de Deus o suficiente para tomar uma decisão acertada: ou olhamos para um alvo ou ficamos vagando entre um erro e outro. A propósito: pecado significa literalmente “errar o alvo”. Não é coincidência.

“Pai, eu prefiro escolher o acerto do que o erro, a vitória do que o fracasso. Ensina-me a agir corretamente e olhar para o alvo da sabedoria.”

Mário Fernandez

Mário Fernandez

Coletivo

“Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;” (Mateus 20:26 ARA)

Jesus falava aos 12 quando esta palavra foi dada e ela está repetida em Marcos 10 e Lucas 22. Neste momento não quero me ater ao gatilho que disparou a palavra mas a um efeito que pouco temos observado em nossos dias.

Os coletivos de coisas comuns são conhecidos: Alcatéia de lobos, Bando de aves, Cacho de bananas e uvas, Cardume de peixes, Colméia de abelhas, Frota de navios, Rebanho de ovelhas e assim por diante. Fiquei a pensar que Igreja deveria ser coletivo de algumas coisas e este versículo me levou a meditar que deveríamos ser conhecidos como grupo de servos, buscando incansavelmente servir uns aos outros. Portanto, poderíamos dizer que num certo sentido igreja é coletivo de servos.

Hoje até a palavra servir está um pouco desgastada, mas não é culpa do evangelho. Jesus sempre falou em servir, o senso de servo era comum no seu tempo e hoje nós vivemos em uma sociedade em que ser servo soa como humilhação, rebaixamento, falta de estima e até mesmo incompetência. Mas o que Jesus ensina é claro, não tem muito para pensar. Podemos decidir “como” servir, mas não temos que perguntar “se” devemos servir. Até mesmo entre o povo de Deus, que deveria compreender isso, o servo, às vezes, é chamado de “puxa-saco” e tantas outras coisas.

No grupo em que convivo e congrego, nós procuramos servir ao máximo e com o melhor que temos, tanto uns aos outros como aos de fora. É um esforço intencional, contínuo, como um exercício físico. Isso inclui trabalho, obviamente, inclui tolerar e incluir, muitas vezes ajudar fazendo coisas que não seriam nossa primeira opção. Toma tempo. Às vezes, custa dinheiro. Mas eu sei, ainda estamos tão longe do que Jesus quer de nós!

Se cada um de nós fizer um pouquinho mais, cada um no seu contexto, o mundo verá e nos conhecerá como coletivo de servos. Quem não quer ser amigo dos grandes? Pois eis aí uma chance.

“Pai, ensina-nos como podemos servir aos nossos irmãos, de forma graciosa e apropriada. Queremos de fato ser grandes no Teu Reino, da forma correta e para Tua Glória.”

Mário Fernandez

Mário Fernandez

Disposição

“Ela, contudo, replicou: Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos.” (Mateus 15:27 ARA)

Quem quer reclamar passa a vida toda reclamando. Até no culto reclama que o som é alto, que está muito quente ali dentro, que nada lhe agrada, nem mesmo a mensagem. Comecei a colocar estas pessoas no lugar desta mulher cananéia e fiquei imaginando…

Jesus chamou a mulher e sua familia de cachorrinhos. Por mais carinhosa que tenha sido a expressão, no sentido de que as pessoas amam seus animaizinhos de estimação, ninguém gosta de ser chamado de cachorro. Pode ser bonitinho, amado, pode ser o que for, ninguém gosta. Meu querido leitor, nossas igrejas estão cheiras de gente que não atura desaforo, nem que venha de Jesus. Essa mulher foi diferente, ela tinha uma situação em casa com sua filha que não lhe dava margem para dengos e melindres.

Se olharmos para Jesus com objetividade e focarmos em solucionar as situações, certamente seremos menos sensíveis ao que nos é falado. Por mais que tenhamos razão, por mais que o interlocutor seja indelicado (o que não foi neste caso com Jesus), por mais que tudo tenha justificativa razoável – nem sempre a Palavra que recebemos será música para nosso ouvido e precisamos, precisamos, aprender a viver focados no alvo. O alvo da mulher cananéia era a cura de sua filha, nada era mais importante do que isso. Perceba que mais pessoas deixaram de seguir Jesus por palavras duras do que por não crer Nele. Foi assim com o jovem rico…

Qual é o seu alvo? O que é mais importante do que tudo em sua vida? É assim importante a ponto de tolerar ofensas, desaforos, palavras duras? Me permita um conselho, e digo eu, não o Senhor: foque nisso e deixe o resto de lado. Não faça conta do que te dizem se não for para te colocar ainda mais no foco. Para o que tirar do foco, ensurdeça. E creio de todo coração que teremos igrejas locais, reuniões, cultos – muito diferentes. Você e eu podemos ser responsáveis por isso.

“Senhor, eu não quer ser um murmurador e sim um adorador. Tem misericórdia de mim e me permita aprender focar unicamente no alvo, desconsiderando tudo que me afasta dele.”

Mário Fernandez

Mário Fernandez

Duas Vezes

“Então, novamente lhe pôs as mãos nos olhos, e ele, passando a ver claramente, ficou restabelecido; e tudo distinguia de modo perfeito.” (Marcos 8:25 ARA)

Eu tenho aprendido que a obra de Deus é completa e eficaz, sendo fruto da mão de um Deus Perfeito. O cego curado nessa narrativa ficou perfeitamente curado, vendo claramente. Jesus tocou-lhe os olhos com saliva, o que já é um por si só um método no mínimo polêmico para nossos padrões. Mas Deus me fez atentar a um ponto que nunca me chamara a atenção: na primeira imposição de mãos ele ficou míope, o que já é melhor que cego, mas não ficou curado. O que teria acontecido? Pouca saliva talvez? Falta de unção do “obreiro” é que não foi…

Este detalhe tem me ensinado que mesmo que Jesus esteja pessoalmente agindo, nem tudo precisa acontecer como nós entendemos ser o correto ou o melhor. Jesus de Nazaré teve de impor as mãos duas vezes para que o cego ficasse sarado, certamente não por falta de santidade ou de unção, nem tampouco por ter orado pouco. Eu não tenho uma resposta conclusiva e inquestionável, teologicamente fundamentada e com base adequada nas Escrituras. O que eu sei, meu irmão, é que esse mistério aconteceu por que a Bíblia conta e eu creio.

Será que isso não se passou apenas para nos ensinar sobre persistência? Ou será que de fato existem coisas que não se pode resolver na primeira pegada? Ou o cego precisava primeiro começar a ver para ter fé de que seria completamente curado? Repito, eu não tenho uma resposta muito boa. Tenho a minha versão.

Aprendi com isso que não podemos deixar nada pela metade pois talvez só falte orar e impor as mãos mais uma vez. Aprendi que não sou mais que um instrumento e posso não conseguir na primeira vez. Aprendi, principalmente, que não importa quanta unção eu tenha, pode ser preciso continuar lutando.

Sirvamos nosso Deus insistentemente, mesmo que pareça que tudo está pela metade.

“Pai, obrigado por me ensinar que as coisas não dependem de serem entendidas para acontecer. Quero ser um servo útil para o Teu Reino.”

Mário Fernandez

Mário Fernandez

Resgate

“o qual a si mesmo se deu em resgate por todos: testemunho que se deve prestar em tempos oportunos.” (1 Timóteo 2:6 ARA)

Certa vez meu carro estragou na estrada, justamente numa curva, num lugar em que o celular não dava sinal. A muito custo, andando para um lado e outro, consegui mandar uma mensagem para um discípulo que veio me buscar com o carro dele. Quando chegou a frase “seu regate chegou” soou como um doce som.

Hoje, alguns anos depois, encaro o resgate com outro tom, talvez mais amadurecido. Naquela oportunidade eu estava com um pequeno problema, mas vejo que as pessoas em geral estão literalmente perdidas. Ser resgatado tem a ver com o perdido, não com o resgatador. Não se trata, em outras palavras, de alguém querer ser resgatador, mas de alguém precisar ser resgatado. O curioso no Reino de Deus é que raramente alguém procura resgate, pois não se dá conta de sua condição de perdido. Isso tem me incomodado.

As pessoas que vagueiam pelo mundo apenas existindo, sem rumo definido e sem noção de eternidade, não sabem ou não se dão conta que estão perdidas. Pedir socorro para quê? Talvez isso explique a razão pela qual alguns grupos encontram tanta dificuldade em crescer, pois estão tentando resgatar quem não pediu socorro. Se voltarmos às origens do evangelho, veremos que tudo começou com o anúncio do Reino de Deus e do arrependimento, portanto, apontando ao pecador a necessidade mais básica que ele não sabe que tem: conhecer sua condição de perdido.

Uma mensagem contemporânea, amorosa mas firme, interessada no bem-estar mas desfocada do imediatismo, fundamentada na verdade mas sem acusações. Se encontrarmos essa fórmula, as pessoas se entenderão perdidas e aceitarão ajuda, certamente a ajuda do Senhor. Como sempre, trata-se de voltar ao elementar e básico, simples e direto. Descompliquemos e conseguiremos.

Ele já Se deu em resgate, agora basta se apropriar.

“Pai, tem compaixão de nós que pensamos que sabemos de alguma coisa mas não nos importamos com os perdidos. Faz de nós anunciadores eficientes da Tua graça e Resgate.”

Mário Fernandez

Mário Fernandez

Sem Sentido

“Disse o SENHOR a Moisés: Estende a mão e pega-lhe pela cauda (estendeu ele a mão, pegou-lhe pela cauda, e ela se tornou em bordão);” (Êxodo 4:4 ARA)

Muitas vezes sou obrigado a reconhecer que Deus não faz sentido em vários aspectos. O Seu amor não tem lógica, Seu Reino extrapola a compreensão, Sua salvação não faz sentido. Nesse versículo, o Senhor manda Moisés fazer algo contra todo bom senso para lhe ensinar algo. Só quem não tem a menor noção do que é uma cobra, pegaria pela cauda; é picada na certa. Mas Moisés aprendeu e vamos tentar aprender também.

Bordão ou cajado representam pastoreio, ministério, cuidado de ovelhas. Ao lançar no chão se tornou em serpente que representa o diabo, o engano, a maldição. Podemos começar entendendo que quem tem um bordão e o lança cria uma serpente? Talvez. Mas se o fizer, terá de retomá-lo com as próprias mãos. E talvez não faça sentido nem se meter com a serpente, mas sob a orientação e direção de Deus é tudo diferente.

Quando Deus manda Moisés fazer algo que ele certamente sabia ser insano, estava testando sua confiança, sua obediência, sua lealdade e sua fidelidade. Invariavelmente Deus tinha algo para ensinar a todos nós por Moisés. Este texto me falou muito ao coração e tenho de admitir que foi duro de assimilar. Eu sei que sou teimoso e resisto a fazer loucuras, mesmo que muitas vezes tenha respaldo suficiente de que foi Deus quem mandou. Isso é um erro. Nada precisa fazer sentido, o que precisamos não é de razão mas de convicção. Moisés teria ainda mais 40 anos de pegar cobra pelo rabo, fazendo outras insanidades, desde abrir mar até tirar água de pedra para o povo beber. Uma mais louca que a outra.

Assim devemos nós tambem ser. Falta coragem para fazer loucuras, ou a razão é mais forte que a fé? Ou será que Deus parou de fazer coisas que não cabem na nossa cabeça e tornou-se “razoável”?

Não creio. Creio sim num Deus que não muda e não mudará. Creio num ser humano falho e que desconfia, desafia e desobedece. Mas creio acima de tudo no milagre de mudar. Eu quero mudar. Eu vou mudar e te convido a se juntar a mim.

“Senhor, Tu não precisas caber nas minhas idéias ou razões, eu é que preciso ser obediente. Dá-me convicção e também abrirei os mares e tirarei água das pedras, na força do Teu Poder.”

Mário Fernandez

Mário Fernandez

Confiabilidade

“Respondeu Moisés: Mas eis que não crerão, nem acudirão à minha voz, pois dirão: O SENHOR não te apareceu.” (Êxodo 4:1)

O ser humano evoluiu muito ao longos dos séculos em tecnologia, conforto, medicina, ciência e tantas outras coisas. Compreendemos hoje o que fora mistério por milênios. Fazemos hoje e que era impossível aos nossos ancestrais, falando com pessoas do outro lado do planeta em tempo real, cruzando o globo em horas, tirando fotos de lugares que nunca pisamos, e assim por diante. Mas, a humanidade continua humana em sua essência.

Note que Moisés sabia com quem estava lidando, pois ele cresceu junto daquele povo e conhecia costumes, fatos e histórias. Temos de lembrar que ele só estava no deserto por ter cometido um crime, matando um egipcio. Foi acusado por seus irmãos, não tinha credibilidade nenhuma, era um desses improváveis de Deus.

Mas como Deus faz o que quer e quando quer, nada disso estava sendo levado em conta ali. O problema era que Moisés não queria ir. Esse foi apenas um argumento de uma lista que Moisés apresentou, a ponto de que no verso 14 a ira do Senhor se acendeu contra ele. O fato e a verdade é que Moisés não tinha credibilidade nem consigo mesmo, quanto mais junto ao povo.

Não existe ministério bem sucedido no Reino de Deus sem a bênção de Deus, ainda que por um tempo as aparências indiquem algo noutro sentido. O tempo revelará. Mas também não existe ministério que ande para frente se o líder levantado por Deus não acreditar em si mesmo. Não se trata de soberba, mas de confiabilidade. Quem quer liderar precisa aprender a crer primeiro em si mesmo, na chama que arde pelo seu ministério, na unção que Deus depositou, enfim, no seu chamado. Sem soberba, com humildade, mas com firmeza.

Talvez num dia como hoje, tudo que falte para despertar um líder expressivo no Reino de Deus, através de sua igreja local, seja uma palavra de encorajamento. Então lá vai: se Deus te chamou, confie que Ele sabe o que está fazendo.

“Pai, eu quero Te servir da melhor maneira que possa, mas preciso de convicção. Trabalha meu coração para que eu saiba o que fazer e como fazer, pois confio na Tua escolha sobre mim.”

Mário Fernandez