Mário Fernandez

Simplicidade – Vivendo o Evangelho

“E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, Louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar.” (Atos 2:46,47)

Devem ter sido dias muito legais. Sem formato, sem protocolo, sem liturgia, sem energia para pagar, sem salário para ninguém, sem complicação. Devem ter sido dias de muita incerteza sobre como fazer as coisas, daí simplesmente faziam. Devem também ter sido dias em que muitos erros eram cometidos, mas ainda assim as coisas aconteciam, o perdão rolava solto. Devem ter sido dias em que o ensino era um pouco mais incerto, mas muito mais simples. Devem ter sido dias muito legais.

Hoje a gente sabe tudo. Sabe como se cumprimentar, como se vestir, como se comportar. Hoje a gente sabe a Bíblia no idioma que quiser inclusive aqueles que não sabe falar, basta ter um smartphone. A gente sabe tudo sobre Deus, o Reino, a Salvação, todas as doutrinas – mas tudo pela assinatura de outros que publicaram em algum site qualquer.

Hoje a gente tem tudo. Tem música para cantar e se não gostar um de nós faz outra. Temos microfones, guitarra, violão, contrabaixo, teclado, bateria, back vocal, projetor e dá para tocar todo culto pela Internet. Temos maquininha de cartão para receber dizimo, temos envelope bonitinho, conta em banco, CNPJ, site na internet, Facebook, Twiter e WhatsApp.

Mas, hoje os dias não são tão legais. A gente perdeu muito do “levanta e anda”, salvo algumas exceções, claro. Perdemos o “perseverando unânimes todos os dias”, afinal temos tanta coisa para fazer. Perdemos a “singeleza de coração” e somos hoje donos da verdade, mesmo quando discordamos. E perdemos completamente o “caindo na graça de todo o povo”, pois quando muito caímos na graça e na simpatia das denominações que nos rodeiam. Às vezes, muito às vezes, da vizinhança.

Eu sou meio cético para algumas coisas e creio que os dias legais não vão voltar, quem vai voltar é Jesus. O verdadeiro evangelho é para ser mais amado e vivido do que entendido – esse já foi. Cabe atualmente a cada um de nós despertar para a realidade do que é o Reino de Deus e vivê-lo da melhor maneira que puder. Cabe a cada um de nós congregar da maneira mais intensa que puder, fazendo de cada encontro um tempo que valha a pena. Cabe a cada um de nós conquistar uma fatia da simpatia de todo povo, no alcance que tiver.

Eu perdi a capacidade de acreditar que possamos viver como viveram esses irmãos no passado. Peço perdão a todos vocês por isso, pois acho que eu deveria ainda acreditar. Mas não consigo. O que vejo diante de mim é fácil de descrever – é o cumprimento das Escrituras quando dizem que os últimos dias seriam ruins, com pessoas ruins dominando o cenário. Mas não perdi a capacidade de crer na essência do evangelho e no que ela pode fazer pelas pessoas. Não perdi a fé no meu Jesus que salva, que cura, que batiza e que voltará. Não perdi um milimetro da minha intenção de gastar cada um dos meus dias sendo esquisito, chato, diferente – desde que seja bíblico. Não perdi a fé em dias melhores, pois creio na eternidade.

Mas que aqueles dias devem ter sido dias muito legais, isso eu creio sim.

“Senhor, eu não posso viver na minha geração querendo reproduzir o que aconteceu no passado. Tenho que ser abençoador na minha época e viver para Ti com entendimento. Por favor me fortalece para isso.“

Mário Fernandez

Um de Nós – Vivendo o Evangelho

“Não é este o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? Não estão aqui conosco as suas irmãs? E ficavam escandalizados por causa dele.” (Marcos 6:3)

Eu já devo ter lido este texto umas 300 vezes, sei lá. Mas hoje me chamou a atenção algo que nunca tinha percebido – parece que o fato de Jesus ser “um de nós” era motivo suficiente para que Ele não pudesse realizar os milagres ou operar sinais maravilhosos. É escandaloso um de nós fazer algo extraordinário? Não consigo ver motivo para isso.

Se já era assim nos dias de Jesus em Israel, hoje talvez (provavelmente) ainda o seja. Parece que tendemos fortemente a não dar crédito para aqueles que estão mais próximos de nós, ou que conhecemos desde há muito tempo, ou que não são, digamos, “famosos”. Eu tenho participado de encontros e eventos cristão ao longo de meus 30 anos de fé e posso afirmar com segurança e confiança – Deus fala poderosamente e age de maneira sobrenatural, porque Ele é Deus! Não importa se o pregador é um badalado ou desconhecido, um experiente ou novato, um bem preparado ou curioso. Tudo que é necessário é Deus falar. por meio de quem, realmente não parece fazer diferença.

Mas isso nos remete ao tema central: o evangelho verdadeiro não é um conjunto de regras, mas um estilo de vida. Uma vida que reflete o verdadeiro evangelho não necessariamente terá sucesso, reconhecimento, ou mesmo aceitação. Veja o texto que escolhemos, no qual Jesus em pessoa era motivo de escândalo por ser o “filho do seu José e da dona Maria”. Mas a pergunta central é: isso fez Dele menos? Menos qualquer coisa: menos Filho de Deus, menos Messias, menos profeta, menos Rei dos Reis, menos Mestre? NÃO. A opinião das pessoas pode nos afetar mas não muda quem somos de fato. Portanto, podemos decidir se agiremos pelo que somos, como Jesus fez, ou pelo que dizem que somos.

Costumo dizer que só importa o que o Senhor diz de mim e não o que as pessoas dizem, ainda que eu possa ouvir a voz da multidão para entender algo. Às vezes será a voz de Deus, às vezes, não. É importante e é bíblico ter bom testemunho, ter paz com todos, cair na simpatia do povo – mas isso não pode me limitar naquilo que Deus espera de mim.

Se talvez sua vida hoje seja limitada pelo conceito das pessoas a seu respeito, assim como a minha foi por muito tempo, talvez seja a hora de avaliar se o conceito de Deus a seu respeito não é mais elevado. Isso talvez desentoque alguns profetas de suas grutas ou faça com que alguns grandes homens e mulheres de Deus se manifestem como tal. O verdadeiro evangelho é de liberdade e não de limitações, é ir além de si mesmo e não aquém.

Em um conjunto de regras é simples, basta olhar a regra e ver como se aplica. No Reino de Deus é necessário entender a vontade do Rei Soberano e cumpri-la, ainda que as vezes isso nos exponha à opinião pública de modo desfavorável. Sejamos nós mesmos, mas façamos o que Deus espera de nós.

“Senhor, não posso permitir que minha fama ou meu histórico limite meu serviço a Ti neste mundo. Me ensina e me fortalece para que eu cumpra Teu propósito para a minha vida, independentemente de quem eu fui até então.“

Mário Fernandez

Admiração – Vivendo o Evangelho

“Então, aquele homem se foi e começou a anunciar em Decápolis quanto Jesus tinha feito por ele. Todos ficavam admirados.” (Marcos 5:20)

É muito entristecedor ver o evangelho e seus ministros caindo em descrédito como temos visto em nossa geração. Li recentemente uma pesquisa Datafolha (cito o nome por ser uma instituição renomada e estar tudo publicado) que dizia que os pastores eram a terceira “profissão” tida por mais confiável. Fiquei animado, mas depois li que 15% das pessoas entrevistadas consideram os pastores como confiáveis. Daí desanimei de vez, pois esse numero significa que arredondando, uma de cada seis pessoas está com boa impressão dos pastores. Mas, e o resto?

Hoje não faltam anúncios de milagres, seja na televisão, nas ruas, nas reuniões, nos livros. Também não faltam oportunidades para as pessoas encontrarem uma igreja que lhes agrade em essência, em estilo, seja ele o tradicional, ou o tatuado, ou o skatista, ou o surfista, ou o erudito, ou o surdo, ou o pensador, o bem pentecostal, o nada pentecostal, o que gosta do anonimato, o que se mistura, o que se envolve, o que quer ir embora logo, o da música e o do silêncio. Esse não é o problema de mais ninguém. Então o que falta?

Falta o que o texto diz tão claramente e poucos atentam – falta o homem curado testemunhar do milagre de forma clara e sincera. Falta menos propaganda e mais resultado. Falta as pessoas que são abençoadas anunciarem o que Jesus fez e não o “milagreiro” na mídia. Note que está cada dia mais difícil as pessoas ficarem admiradas com o que quer que seja, tanto para o bom como para o ruim. Precisamos encontrar urgentemente uma forma de fazer com que as pessoas sejam abençoadas, porque quem abençoa é Deus, e que isso faça com que estas pessoas sejam testemunhas do seu milagre.

Ao meditar muito tempo no assunto, algo me ocorreu. Vivemos em outra época e temo (no sentido de ter temor mesmo) que os parâmetros bíblicos não sirvam mais de referência para nós, no sentido de como fazer as coisas. Os princípios sim, são imutáveis. Os ensinos valem. Mas o MODO não se aplica mais, temos que fazer a mesma coisa de outra forma. Por quê? Simples. Jesus curava e ensinava direito, deixava as pessoas com entendimento do que havia acontecido. Eram menos pessoas. Havia menos “opção”. Hoje é tudo tão diversificado e complicado, que as pessoas, mesmo sendo curadas (ou alcançadas por outra forma de favor Divino), não entendem o que aconteceu. Entram doentes, saem curadas; entram ignorantes do Reino de Deus, saem igualmente ignorantes.

Vou ter de ser chato e repetitivo: nos falta Palavra Viva, Escritura Sagrada, Revelação de Deus – BÍBLIA. Falta saber mais, estudar mais, entender mais e ensinar mais. Eu creio com todo meu coração que se ensinássemos sobre o Reino com a mesma qualidade que Jesus ensinou, os paralíticos andariam e sairiam dizendo o que aconteceu – e as pessoas ficariam admiradas. Te convido a embarcar comigo, vamos tentar mudar isso. Vamos ensinar mais sem deixar de investir na ministração da cura, da libertação, do milagre, do sinal – chame como chamar.

“Senhor, me sinto constrangido quando vejo o evangelho aguado dos meus dias, com pouco impacto na minha geração. Dá-me discernimento para agir de forma que as pessoas Te conheçam através das Tuas maravilhas.“

Mário Fernandez

Intimidade – Vivendo o Evangelho

“Não lhes dizia nada sem usar alguma parábola. Quando, porém, estava a sós com os seus discípulos, explicava-lhes tudo.” (Marcos 4:34 )

Quanto mais eu ando com Deus, quanto mais eu leio a Bíblia, quanto mais eu congrego com o Povo de Deus, quanto mais eu oro, quanto mais eu escuto pregações da Palavra – pior fica meu quadro. Mais desgraçadamente pecador me sinto e mais nitidamente distante estou do Santo-Santo-Santo. A exposição ao Reino de Deus parece ser meio “radioativa” para mim, me afetando direta e instantaneamente, mas também retardadamente, imediato mas prolongado. Cada vez mais percebo que sou nada mais nada menos do que “eu” e que o Deus a quem eu sirvo é o que é. Mas também, na mesma intensidade, percebo o interesse e o foco Dele em me fazer compreender o valor do tempo a sós com Ele.

Este versículo saltou-me aos olhos numa leitura diária, numa manhã de domingo, enquanto a família ainda dormia e eu desfrutava do silêncio do começo do dia, sem qualquer pretensão extraordinária. Veja que para a multidão Jesus destinou parábolas, mas para os íntimos explicou. Não são dois pesos e duas medidas, são duas situações diferentes para dois povos diferentes. Assim como se pode comprar uma casa pelo valor de R$200.000 até R$10.000.000 – mas serão casas diferentes.

Falar por parábolas é ensinar, sim. É dar o que se pode receber, o que se pode usar. É como fazemos com nossas crianças de 6 ou 7 anos de idade. Contamos histórias, mostramos letrinhas soltas, palavrinhas novas. O ensino está ali, a base está ali. Mas o significado filosófico de uma palava que toda criança conhece como “mãe” por exemplo, só lhe fará sentido na vida adulta. Para algumas infelizmente nunca fará o sentido que deveria.

Sei que vai soar impopular, mas lá vai – é mais importante estar a sós com Jesus do que qualquer outra coisa. Nunca me aconteceu, mas imagino minha reação se um dia um discípulo meu me procurar dizendo algo como “irmão me perdoe que não fui no culto ontem, mas eu estava orando a sós e me empolguei, passou longe da hora”. Penso (creio) que vou começar tendo inveja, depois eu choro. Bem, vou chorar com certeza. Querido, isso é tudo que temos de diferente dessa multidão que perambula pela Terra como ovelha que não tem pastor. Milhares de milhares de almas que flutuam de igreja em igreja, ocupando cargos, fazem coisas, entregam dízimos, fazem orações, cumprem os procedimentos, mas não vivem a parte mais exclusiva e importante do verdadeiro Evangelho – a intimidade com Jesus.

O evangelho não é um conjunto de regras, é uma caminhada a sós com o Cristo de Deus, Jesus de Nazaré, em intimidade e aprendizado direto da fonte, que resulta num estilo de vida. É um mistério, pois todos nós podemos caminhar a sós com Ele ao mesmo tempo, mas o Reino é assim mesmo. Eu consigo compreender a correria dos nossos dias, tenho dois empregos. Eu consigo compreender a dificuldade de ouvir tantas vozes se dizendo certas. Eu consigo compreender os desafios de uma vida de santidade, eu sou de carne e osso. Mas se meu dia não tem pelo menos alguns minutos para ficar calado tentando ouvir as explicações, tudo que aprendo será figurativo. Negligenciar o tempo a sós com Deus seria sentenciar sua vida à uma prisão na qual vai gastar todos os seus dias sabendo o que quero de Deus, sem jamais sequer suspeitar do que Ele realmente quer de mim.

Vamos nos unir em torno do que quisermos, mas somente depois de tirarmos um tempo a sós com Ele. Que sejam 5 minutos, mas que tenham qualidade. Que sejam mais e mais minutos, com o passar do tempo, pois o benefício é unicamente nosso – pois Ele não será mais Deus do que já é.

“Senhor, me perdoa por negligenciar o tempo a sós contigo, retirado das multidões. Me ensina a organizar minha vida e meu tempo para que eu consiga crescer na Tua presença aprendendo diretamente de Ti.“

Mário Fernandez

Perfeição Coletiva – Vivendo o Evangelho

“Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês” (Mateus 5:48)

Eu fico sempre muito atento ao que Deus espera de mim, me manda fazer ou claramente é obrigação minha. Toda ordem Bíblica para mim precisa ser levada muito a sério independentemente de contexto ou época. Eu considero, pessoalmente, que o contexto e a época se referem ao “como” obedecer, mas não tem qualquer relação com o grau de seriedade com o qual devo obedecer. Em miúdos, podemos discutir “como” mas não discutimos “se”. Daí me deparo com este versículo que diz para fazer o impossível, pois jamais serei perfeito – no meu conceito de perfeição.

Mas daí a bondade de Deus se manifesta em tempo útil e para edificação, como era de se esperar com aqueles que o buscam com sinceridade e humildade. Eu estava num culto “normal”, sem qualquer particularidade, pregador nem era o pastor da igreja e de repente no meio de um assunto que não tinha nenhuma conexão aparente – bingo. Vamos usar um pouco de entendimento.

Considerando que Deus não é burro nem nada parecido com isso, assim como também não tem interesse em nos confundir, temos de olhar para o todo da Palavra revelada – a Bíblia. Eu creio sinceramente que esta perfeição é coletiva, ou seja, a soma das minhas imperfeições com as suas e as dos demais irmãos, gera uma espécie de cobertura destas imperfeições. Me permita explicar.

Eu tenho dom de mestre, o que significa que consigo pegar uma idea e fazer dela uma aula expositiva, clara e que pode ser não apenas aprendida como também praticada. Nem todo mundo é assim ou tem essa capacidade. Já no quesito de evangelismo, eu tenho um desempenho fruto de esforço e dedicação mas não é fluído ou fluente como vejo alguns irmãos ganhando gente enquanto abastece o carro por exemplo. Se somarmos estes dois perfis, temos dons de mestre e evangelismo no melhor ponto da curva. Daí tem um abençoado que conheço que ama de paixão visitar velórios e funerárias para falar do evangelho, coisa que eu só faço com gente conhecida e ainda assim faço em sofrimento. Se somarmos os três, temos um perfil fantástico. Me fiz claro? Consegue imaginar isso?

Então, olhando deste ponto de vista, podemos obviamente entender que a perfeição pessoal é um alvo que devo perseguir mesmo sabendo que não o alcançarei plenamente. Mas é um compromisso pessoal, pois o que eu conseguir servirá para cooperar para que a soma com os demais seja plena. Se eu, mesmo que lentamente, aumentar meu grau de perfeição naquilo que faço, somar-me aos meus irmãos com a mesma intenção e com o mesmo esforço, poderemos ser “perfeitos” ainda que nenhuma das partes seja “perfeita”. A soma dos imperfeitos nos fortalece e nos aperfeiçoa. Isso, meu querido, é viver o evangelho em grupo.

Não consigo deixar de pensar que esta soma de esforços, quando se reúnem as pessoas cuja intenção é aperfeiçoamento, poderia até ter um nome. Sei lá, talvez “culto” ou “celebração”. Acho que li isso em Efésios 4:16.

“Senhor, não quero ser negligente para o dom que me deste, mas não é com ele que serei perfeito como Tu ordenaste. Me ensina a somar com meu irmão em amor para juntos aumentarmos nossa perfeição coletiva diante de Ti.“

Mário Fernandez

Dependência – Vivendo o Evangelho

“Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma.” (João 15:5)

No minimo interessante essa colocação de Jesus, como sempre, nos levando a refletir além do óbvio (mas sem deixá-lo de lado). Dependemos dele como um ramo depende da árvore, neste exemplo uma videira (de onde se colhem uvas). Se for cortado, o ramo em algum tempo seca, e jamais dará frutos. Somos muito mais dependentes do que pensamos ou admitimos.

Mas igualmente interessante é olhar que, se permanecer ligado à árvore, não apenas daremos frutos, mas daremos ‘muito’ fruto. Vemos pessoas que pouco ou nada produzem para o Reino de Deus e o discurso varia entre “Deus é quem sabe” e “talvez não seja tempo” enquanto outros produzem muito com até mesmo menos recursos. Refiro-me a qualquer fruto que possa ser produzido para Deus – almas, reconciliações, santidade, restauração, libertação, cura, qualquer coisa que glorifique a Deus sem dar brilho para o homem é fruto espiritual.

Será que não estamos trabalhando demais ‘para’ Jesus sem estarmos Nele ligados? Será que não é a força do nosso braço, as tradições, os costumes, as teorias, as teologias, a racionalidade, o mundanismo, o materialismo, as estratégias, o egoísmo, a ganância, a sede desenfreada de poder e conquista? Será que não são essas coisas que estão produzindo algum resultado no nosso meio? Talvez, pois todas elas são produtivas e no mundo têm seu valor – mas nós não devemos usar nada disso pois nem pertencemos a este mundo, devemos ser mais espirituais que isso.

A inércia é um fenômeno poderoso. Define-se como “propriedade da matéria que faz com que ela resista a qualquer mudança em seu movimento” ou num português mais simples “se está andando continua andando, se está parado continua parado”. Esse efeito nos colocou num rumo em que, temo, tenha se tornado nossa camisa de força no Reino de Deus. O culto tem um formato, não pode mudar. Temos horário a cumprir, Deus que deixe para curar amanhã. As técnicas de evangelismo são essas e não aquelas. Precisamos de estratégias e organização. Nada disso é ruim em sua essência, por favor me entendam, mas nada disso é espiritual.

Galho ligado à videira é galho que ora, que chora, que geme, que intercede, que busca, que sabe dizer não, que se esforça, que se sacrifica, que reparte, que perdoa, que anuncia as maravilhas do Reino, que se orgulha de ser cidadão do Céu, que faz o que Deus manda mesmo sem ter ‘qualificação’, que abre mão de seus direitos se for necessário, que nega a si mesmo… como não dar fruto vivendo assim?

Talvez o que não nos demos conta ainda é que para estar ligado à Ele temos que desligar de nós, do mundo, dos valores mundanos. Corte o galho do ego e dos caprichos, meu irmão. Eu tenho tentado, tenho me empenhado e algo tem começado a acontecer. Misericórdia, deveria ser muito mais.

“Senhor, eu quero me ligar mais à Ti. Me fortalece e me ensina a simplificar minha vida e encontrar formas e meios de me ligar mais e mais Contigo e menos comigo mesmo.“

Mário Fernandez

Sinais – Vivendo o Evangelho

“Mas se as realizo, mesmo que não creiam em mim, creiam nas obras, para que possam saber e entender que o Pai está em mim, e eu no Pai”.(João 10:38)

Nós estamos habituados com sinais em nossa cultura ocidental, nas mais diversas situações. Um apito que encerra um jogo, um aplauso que expressa aprovação ou elogio, um sorriso que mostra felicidade, uma luz vermelha que nos faz parar, uma sirene que nos tira da frente da viatura, uma placa que nos impede de prosseguir numa via, até mesmo uma arma apontada para nosso nariz nos faz levantar as mãos. Conhecemos muitos sinais. Isso não é de hoje, não começou hoje, não é apenas para hoje. Fomos treinados por gerações e gerações e mesmo estes sinais cotidianos evoluiram. O recado central é que temos capacidade de entender sinais e interpretá-los para viver.

Pois bem, isto posto temos de classificar os sinais em visuais ou visíveis, auditivos, perceptivos e sensitivos. Os visuais são os que vemos com os olhos, como um semáforo que fica vermelho e paramos o carro. Os auditivos são os que ouvimos, como um apito de um guarda. Os perceptivos são aqueles mais subjetivos, como a famosa “cara de criança mentindo” que não está tão cientificamente mapeado, mas dá para perceber. Os sensitivos são os que vem das nossas sensações como calor, frio, vibrações, cheiros – um cheiro de podre no ar é um sinal para tirar o lixo, por exemplo.

Este texto bíblico nos ensina que Jesus dava todos os tipos de sinais necessários para mostrar quem era e quem O havia enviado ao mundo. Note que havia sinais tão visuais quanto uma tempestade se acalmando, ou um escurecer do dia no meio do dia. Havia sinais audíveis como ordens a demônios que obedeciam. Havia pessoas se dizendo libertas ou curadas mesmo que a medicina da época não pudesse diagnosticar. Havia todo tipo de sinal, mas eram todos com um único propósito.

Se somos imitadores de Cristo e cremos na promessa de que “obras maiores faremos”, os sinais são algo inevitável assim como seu objetivo. Não faremos sinais para nosso engrandecimento, nem para ter nosso ministério afamado ou reconhecido, muito menos para encher nossas igrejas. Nem mesmo o eterno clichê de “foi por amor às pessoas” vai servir. Os sinais serão legítimos e darão resultado quando visarem fazer Jesus conhecido e Seu Pai como quem o enviou. Nem mais, nem menos.

Viver um evangelho genuíno e autêntico, como estilo de vida do Céu, é não ser egoísta nem soberbo. Pelo contrário, é viver pelo estilo “diminua eu”. Os sinais podem chamar atenção para mim ou para Ele. Eu decido isso. Agora, me responda sinceramente: de que adianta dissertar tudo isso se os sinais não se manifestarem? Bom, isso é assunto para outra hora.

“Senhor, eu quero manifestar sinais que sejam Teus, que apontem para Ti e que glorifiquem somente a Ti. Me ensina a viver de modo que minha vida, minha conduta e meu caráter sejam o maior sinal.“

Mário Fernandez

Pureza – Vivendo o Evangelho

“Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível.” (Efésios 5:27)

Vivemos dias de muita confusão, ensino raso, polêmicas se multiplicando exponencialmente, músicas de conteúdo duvidoso (às vezes nem isso), pessoas em quem não se pode confiar. É uma festa, mas não no bom sentido da expressão. Por outro lado as estatísticas dão conta de um crescimento numérico extraordinário no meio eclesiástico, igrejas construindo estruturas de reunião nunca vistas (e lotando-as) e uma crescente figura pública de algo chamado “igreja evangélica”. Parece incoerente, pois uma coisa deveria estar intimamente ligada com a outra.

O que tem isso com o texto escolhido? Pois é…

Vemos que pelos números o povo evangélico está crescendo, mas a noiva de Cristo não está se preparando. Uma noiva gloriosa significa brilhosa, radiante – que deveria clarear esse mundo em trevas. Sem mácula significa sem defeito, sem nada feio, sem cicatriz, sem machucado, sem arranhões. O próprio texto explica como santa (separada) e irrepreensível (não tem do que reclamar). O que vemos, no entanto, é preocupante.

A pureza esperada pelo Noivo está muito acima dos padrões apresentados atualmente. Isso vem de uma série de situações, mas não quero ser teórico nem filosófico, quero ser bíblico. Um versículo antes, Paulo diz aos Efésios que a santificação e a lavagem são dados pela Palavra. Ou seja, somos numericamente cada vez mais, porém sabemos cada vez menos de Bíblia. Para mim faz todo sentido, principalmente ao olhar ao meu redor.

Não sou dos que defendem que todos devam estudar, no sentido escolástico tradicional, embora eu considere que isso seja uma coisa muito boa, muito importante e que, se for possível, estude para mais e não para menos. Mas reconheço que nem sempre é possível. Mas sou sim dos que defendem que TODOS, sem exceção alguma, devem estudar as Escrituras continuamente. Mesmo o mais analfabeto pode pedir ajuda, mesmo o mais atarefado consegue tempo, mesmo o mais lento de aprendizado consegue ir um pouco adiante. Não vejo como opção, mas como requisito para formar a noiva que o Cordeiro espera.

O que está acontecendo em nossos dias é uma explosão de bolha – não tem nada dentro. O conteúdo sumiu e não estamos suficientemente empenhados em recuperá-lo. Eu tenho dedicado meus dias a aprender e ensinar a Palavra de Deus fazem quase 30 anos e às vezes me sinto um salmão tentando subir a cachoeira. Nem por isso vou desistir, mas tem dias que são ingratos. Espero minha recompensa na eternidade e não nesse mundo, mas temo por esta geração que pensa que sabe tudo, mas não se dedica ao que realmente importa.

A pureza da Noiva não é opção e só vem pela lavagem com a Palavra. Vamos voltar às bases: leitura, meditação, estudo, compartilhamento, aulas, temos todos os recursos. Do contrário, como disse, temo por esta geração que pensa ser noiva e na hora das bodas descobrirá, desafortunadamente, que nem convidada foi.

“Senhor, ajuda-me a desejar mais a Tua Palavra no meu tempo, na minha mente, na minha memória e na minha vida. Eu é que preciso disso, sei que o Senhor é Deus.“